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INTERVENÇÃO "INTERNACIONAL" NA AMAZÔNIA?
Numa noite quente de verão de junho de 1995, eu estava na Califórnia,
numa cidadezinha próxima a San Diego, quando liguei o rádio para
ouvir um daqueles talk-shows tão comuns nos Estados Unidos, e o que ouvi
me deixou bastante perturbado. Falava Bob Grant, um radialista americano famoso
e conservador radical, para quem tudo é possível e ético
se vier a favor dos interesses norte-americanos. Ele entrevistava pessoas pelo
telefone e pedia a opinião delas. Nessa noite, ele deu uma notícia
sobre o desmatamento da Amazônia e pediu opiniões. E elas vieram
com a rapidez de um relâmpago. O primeiro ouvinte foi logo dizendo do
perigo de um país como o Brasil, um país do Terceiro Mundo, ter
em suas mãos uma floresta daquelas, uma rain forest, como a chamam. E
falou da relevância dessa floresta para o mundo, em função
da capacidade de renovar o oxigênio de toda a Terra - o que é falso,
porque todo oxigênio produzido pela floresta amazônica é
por ela própria consumido - e de como o mundo tinha de tomar cuidado
com o que vinha acontecendo no Brasil. Acabou por sugerir a internacionalização
da floresta. E terminou: "O que você acha da minha idéia,
Bob?". E Bob Grant, retrucando prontamente: "You right, you are right".
As outras opiniões foram todas na mesma linha.
Esta idéia fixa de que o Brasil deve ceder a Amazônia para potências
internacionais por se mostrar incapaz de preservá-la, esta idéia
está firmemente aninhada no espírito americano e também
europeu. Vem de há muito tempo. Relembre-se Gilberto Amado, que já
em suas memórias se referia a este fenômeno singular. Dizia Gilberto
não compreender a idéia por que a Imprensa européia pegava
o menor incidente sobre o Brasil e o aumentava mil vezes se ele fosse depreciativo
e o ignorava se mostrasse o lado bom de nosso país. Mas se as grandes
potências estrangeiras desejam tanto internacionalizar aquela região
brasileira, por que não o fazem abertamente? Não o fazem porque
temem a repercussão de tal ato no mundo, uma vez que militarmente não
deveria ter grandes problemas. E então adotam a estratégia que
consiste em passar ao mundo a imagem de que sem a Amazônia o mundo não
sobreviverá, dando a entender que no futuro, muito a contragosto, terão
de fazer a intervenção militar naquela área. É campanha
sorrateira, campanha bem feita, em que as garras estão ocultas.
Mas por que os Estados Unidos e Japão - na linha de frente - estariam
tão interessados em internacionalizar a Amazônia? Para protegê-la?
Para salvar o mundo, dobrando-lhe a capacidade de oxigênio disponível,
como eles afirmam? É evidente que não. Buscam ali riquezas. Aos
Estados Unidos interessam a fabulosa variedade de plantas medicinais para sua
poderosa indústria farmacêutica e a sua riqueza madeireira. Ao
Japão interessa o seu minério e a sua madeira. Mas como ainda
não podem fazer uma intervenção aberta, esperam.
Mas pelo quê esperam? Esperam pelo grande pretexto. E esse pretexto está
se corporificando sob a forma de grandes queimadas e dos desmatamentos acelerados.
E coisa inacreditável: esses pretextos pelos quais essas potências
estrangeiras vêm esperando há dezenas de anos lhes estão
sendo fornecidos de graça, numa bandeja de prata, pelos nossos políticos
e burocratas, brasileiros que deveriam ser os primeiros a defender a soberania
do território nacional. O primeiro desses grandes pretextos está
na autorização oficial da instalação das grandes
madeireiras da Malásia na Amazônia. Elas estão lá
cortando madeira, é verdade, dizem membros do governo, mas estão
limitadas por quotas, só podem cortar aquilo que foi combinado entre
nós. Ó, santa ingenuidade a desses homens que nos governam, a
de pensar que as madeireiras malaias vão cumprir acordos estabelecidos
lá naqueles cafundós da imensa floresta amazônica, através
de fiscalização. Falar em fiscalização neste país
é quase o mesmo que pôr um gato tomando conta de sardinhas.
E se algum leitor desta coluna duvida do que aqui foi dito, atente para o seguinte
fato: analise a repercussão que teve na Imprensa mundial o incêndio
de Roraima. Toda a grande Imprensa mundial para cá veio e escreveu para
o mundo que a floresta amazônica estava em chamas. Outras partes do mundo
ardiam em outros países. Na Austrália, na Venezuela, no Canadá.
Eram igualmente incêndios pavorosos, mas foram pouco notificados. Dois
grandes pretextos nós já lhes demos para a cobiçada intervenção.
Eles irão esperar pelo terceiro? A Amazônia corre perigo de vida:
salvem-na.
Fonte: MRLN